terça-feira, 30 de março de 2010

O toma lá dá cá entre a imprensa e Serra: parte 2. A Folha de $ão Paulo


Dimenstein, da Folha de São Paulo: o mensalão da imprensa?

Ontem vimos uma das formas do é "dando que se recebe" que marca as relações entre o governo do Estado de São Paulo, sob a gestão Serra, e a imprensa: a cessão gratuíta de um terreno de R$ 11 milhões por mais de 10 anos à Rede Globo. Hoje vemos outra manifestação do toma lá dá cá: o governo de São Paulo repassou R$ 3,7 milhões a uma ONG criada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, um dos principais articulistas de política da Folha de São Paulo. Vejam a matéria abaixo, do blog NaMariaNews (namarianews.blogspot.com):

De fato. Não se pode maltratar ou discordar de quem nos ajuda - seria falta de respeito, consideração, estima, bom senso; seria perder a noção do perigo etc..

Deve ser por isto que o nobre jornalista Gilberto Dimenstein, da Associação Cidade Escola Aprendiz (CNPJ/MF 03.074.383/0001-30) escreveu Professores dão aula de baderna e Uma greve contra os pobres e também Vocês desrespeitam os professores, da qual citamos o brilhante trecho:
Até que ponto o sindicato dos professores não está chamando uma manifestação para amanhã, na frente do Palácio dos Bandeirantes, à espera de um conflito e uma foto na imprensa? Nada contra a manifestação em si. Mas a suspeita é inevitável. Os dirigentes do sindicato são filiados ao PT, interessado em desgastar a imagem de José Serra, que está deixando o governo estadual para se candidatar à Presidência. Também sabemos que na cúpula do sindicato existem os setores mais radicais da esquerda como PSOL e PSTU.
Como se sabe, ali é área de segurança e se alguém passar da linha a polícia é obrigada, por lei, a intervir.
Seria mais um desrespeito à imagem do professor se fosse apresentado à sociedade como gente que não obedece a lei.
Você, que tem ao menos dois neurônios sadios, entendeu a mensagem, né não? Então nem vamos ousar explicar.

Por outro lado, por sermos adeptos de outras lições, resolvemos atender aos instintos mais viscerais e mostramos que a teoria é verdadeira na prática: não se pode morder a mão que nos afaga. Assim que, só por alto, mostraremos a palma carinhosa que só tem feito bondades ao importantíssimo educador de São Paulo.

“Planilha do balanço e prestação de contas do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente” (FUMCAD)

Organização: Associação Cidade Escola Aprendiz
(ano – nome projeto – validade – atendidos – idade – valor)

  • 2006
    • Escola na Praça (de 02/05/06 a 01/05/07) – 170 – 04 a 16 anos – R$264.446,00
    • Trilhas Urbanas (de 02/05/06 a 01/05/07) – 95 – 15 a 17 anos – R$144.510,00
  • 2007
    • Projeto Trilhas na Vida (de 01/03/07 a 01/03/08) – 160 – 14 a 17 anos R$776.566,30
    • Aprendiz das Letras (de 01/07/07 a 29/02/08) – 60 – 04 a 15 anos – R$87.594,72
    • Percurso Formativo (de 01/07/07 a 29/02/08) – 70 – 12 a 18 anos – R$222.300,00
  • 2008
    • Trilhas na Vida (de 01/04/08 a 31/03/09) – 120 – 14 a 17 anos/11 meses – R$848.744,39
    • Aprendiz das Letras (de 01/05/08 31/12/08) – 60 – 04 a 15 anos – R$85.610,00
    • Percurso Formativo (de 01/05/08 31/12/08) – 115 – 11 a 18 anos – R$369.840,60
      (DO da Cidade de SP 5/fevereiro/2009 - e páginas seguintes)

Àquilo tudo acrescente as renovações que assim se iniciam:

CONSIDERANDO: - o artigo 7º, da Lei 11.123, de 22 de novembro de 1991, segundo o qual o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente é órgão de decisão autônomo e de representação paritária entre o governo municipal e a sociedade civil; - que em 19 de abril de 2008, foi publicado no veículo oficial de comunicação desta cidade o Edital FUMCAD 2008, cujo objeto é estabelecer procedimento e realizar processo de analise e seleção de projetos que poderão ser financiados pelo Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente - FUMCAD/SP/2008 que estejam em consonância com as políticas públicas da Criança e do Adolescente da Cidade de São Paulo e que sejam inovadores e/ou complementares, conforme reunião realizada no dia 17 de abril de 2008, que aprovou o texto final deste Edital; - que a Comissão Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, no uso das suas atribuições, aprovou o projeto...

  • Comunidade Educativa - Escola na Praça: Despacho Processo nº 2008-0.311.233-1 - por 12 meses a partir de 02/04/2009 (para 75 adolescentes) = R$439.474,17 (DO Cidade 26/março/2009)

  • Formação - Agência de Notícias: Despacho Processo nº 2008-0.315.519-712 - por 12 meses a partir do dia 01/04/2009 (para 20 estudantes de 14 a 18 anos) = R$108.302,0031/março/2009)
    (DO Cidade
  • Trilhas: Despacho Processo nº 2008-0.315.522-7 - por 12 meses a partir de 02/04/2009 (para 60 adolescentes) = R$317.834,56 (DO Cidade 2/abril/2009)
Com a Secretaria de Cultura do Estado, firmou singelo contrato (Processo SC 001653 /2009 - Contrato 457 /2009) de 36 meses em referência ao projeto Escola da Rua, relativo ao Edital: Pontos de Cultura do Estado de São Paulo. Valor praticamente simbólico de R$60.000,00 (DO 25/dezembro/2009).

Total geral (parcial) daquele aprendiz que trata com amor aqueles que o amam: R$3.725.222,74.

Em breve teremos mais do mesmo parceiro da Microsoft, SEE-SP, Prefeitura de SP, Revista Nova Escola, Editora e Fundação Abril, Colégio Bandeirantes, COC, Fundação Vanzolini, Uninove, Universia, Camargo Correa, UOL... Aguarde neste aracno blog.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Globo faz grilagem de terreno público em São Paulo com aval de Serra

Retorno com esta matéria da Record.
Moralismo prá cima dos outros é barbada...
A Globo usufruiu gratuitamente de patrimônio público em benefício próprio, com a conivência do Governo do Estado do governador Serra.
Se o governo de São Paulo, gerido pelo PSDB há 14 anos, tivesse alugado a área
para a Globo mesmo ou para outros , durante os 11 anos em que foi ocupada irregularmente, teria arrecadado cerca de R$ 12 milhões para os cofres públicos.
Tente você, contribuinte comum, apropriar-se indevidamente de área pública prá ver o que acontece...




sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cenas da disputa presidencial 2010: a desistência de Aécio Neve

Destaque do artigo abaixo:

De maneira diferente, mas com os mesmos fundamentos, repete-se, nas eleições do ano próximo, o problema registrado em 1930. Os paulistas estavam convencidos de que a sua supremacia econômica significava, necessariamente, seu predomínio político sobre a Federação. Em razão disso, vetaram a candidatura do então governador de Minas, Antonio Carlos – o que acabou conduzindo o gaúcho Getulio Vargas ao poder.


A decisão de Aécio Neves

17/12/2009
Por Mauro Santayana, no Jornal do Brasil

Quando, instado por importantes personalidades da sociedade brasileira, entre elas líderes políticos regionais, a candidatar-se à sucessão presidencial, Aécio Neves sugeriu consultas prévias às bases partidárias. Seria a forma mais democrática de escolha. Não deveria o partido, que surgiu da dissidência do PMDB, em oposição ao mando do governador de São Paulo, Orestes Quércia, ficar submetido à vontade de duas ou três personalidades paulistas, como vinha ocorrendo desde a Presidência de Fernando Henrique.

Em uma Federação, os diretórios regionais devem ter o direito de expor suas ideias e suas preferências, de acordo com as condições políticas locais. Não podem transformar-se em caudatários resignados de um diretório em particular. O problema não houve em 1995, porque o PSDB não elegeu o sociólogo; quem o elegeu foi Itamar Franco. O PSDB não o elegeria, sem o claro apoio do presidente da República, que dispunha de prestígio equivalente ao do atual chefe de Estado.

Os paulistas, com Fernando Henrique à frente, se opuseram às prévias, ao perceber que o governador mineiro as venceria facilmente. Aécio, nas visitas esporádicas aos estados, reunia poderosas alianças regionais, em torno dos diretórios de seu partido. Se realizadas, as consultas confirmariam a tendência já registrada. Por isso, Serra, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin não aceitaram a consulta.

Não aceitaram a consulta, nem tiveram a coragem de dizer ao governador de Minas que pretendiam impor a candidatura paulista. Interessava-lhes manter as coisas bambas até o prazo final para a filiação partidária, de maneira a impedir que, se o desejasse, Aécio aceitasse disputar a Presidência por outras legendas, que lhe eram oferecidas – entre elas, a do próprio PMDB. Mas ele preferia que sua candidatura se fizesse de baixo para cima, e contava com as prévias.

Não convinha ao governador de São Paulo, nem a seus aliados paulistas, assumir a posição de anti-Lula, conforme percebeu argutamente o senador Pedro Simon, no momento em que o presidente dispõe de altíssimo índice de popularidade, registrado por todos os institutos de pesquisa. Serra preferia fazê-lo no ano próximo, já que previa dificuldades na economia nacional, que trouxessem problemas políticos para o presidente – e de eventuais denúncias contra o PT, tão comuns em tempo de eleição. Ao recusar as prévias, e diante do pronunciamento de Aécio, José Serra já é, na percepção do povo brasileiro, o candidato da oposição, o anti-Lula.

O senador Sérgio Guerra, que manifestara a convicção de que Aécio dispunha de maior capacidade de ampliação de alianças regionais, voltou a elogiar a coragem moral do mineiro, reafirmando que ele será um grande presidente da República se vier a ocupar o cargo. Se o quadro se mantiver, com a candidatura de Serra, o grande beneficiário será Ciro Gomes. Relembre-se que as mesmas pesquisas que dão, hoje, preferência a Serra atribuem a uma chapa Aécio-Ciro 35% de intenções de voto.

De maneira diferente, mas com os mesmos fundamentos, repete-se, nas eleições do ano próximo, o problema registrado em 1930. Os paulistas estavam convencidos de que a sua supremacia econômica significava, necessariamente, seu predomínio político sobre a Federação. Em razão disso, vetaram a candidatura do então governador de Minas, Antonio Carlos – o que acabou conduzindo o gaúcho Getulio Vargas ao poder.

Cabe ao partido decidir em convenção nacional se ratifica o nome de Serra, ou se aceita outra postulação. O tempo é curto, mas ainda não se esgotou. E só a convenção partidária é soberana.

O governador de Minas tem seu prestígio político nacional robustecido pela coragem da decisão de ontem. Minas terá grande peso no pleito do ano que vem, e acompanhará a sua liderança, na hipótese de que não seja candidato à Presidência da República, e sim ao Senado. A leitura atenta da carta que enviou ao partido não o compromete em favor de qualquer candidatura. Como registrou a imprensa, ele não mencionou o nome do governador de São Paulo. A nota de Serra, nos termos em que foi redigida, era esperada. Ele tentou, com os elogios a Aécio, e em atitude diplomática, convencer os diretórios regionais do PSDB de que a agremiação é “democrática”.

O anúncio de Aécio não encerrou a questão, nem decidiu o pleito. É mais um movimento do processo sucessório, que promete ainda fortes surpresas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cesar Benjamim

O único comentário que farei sobre o já famoso artigo do Cesár Benjamim sobre o Lula não será sobre o artigo, mas sobre ele. E, já me desculpando, não encontrei outro jeito de caracterizá-lo...

Em todo grupo há o sujeito que faz a diversão da turma nas piadas. O Césinha é do tipo que cai em todas as pegadinhas do tipo:

1. Que time é teu?

2. Você está num navio com seu cachorrinho chamado Nabunda. O barco afunda. Você leva Nabunda ou deixa Nabunda?

3. Qual é o aumentativo de dacueba?

4. Meu pai está pensando em fazer um churrasco. Com 30 quilos de carne dá pra 20 comer?

5. Você chegou há pouco de fora?

Não dá prá levar a sério.

Golpe em Honduras II: vejam o que os norte-amenricanos recoheceram como eleições democráticas

Eleitor hondurenho indo por vontade própria em direção a urna


Professor do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-oeste do Paraná e diretor do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN, Hélvio Henrique Mariano, que está em Tegucigalpa participando de uma missão de observadores internacionais convocada para acompanhar o pleito:

"Existem mais de oito mil mesas eleitorais espalhadas por Honduras, e os votos ainda são em cédulas impressas em papel. Após o fim da votação, cada seção eleitoral apura seus votos e o presidente da mesa eleitoral informa o resultado final por telefone celular a uma central de processamento de dados que fica na capital Tegucigalpa", esclarece, acrescentando que é o próprio exército golpista que guarda urnas e cédulas.

Para o relato completo vá ao site da ANDES.



E a história continua, o Governo Norte-americano continua produzindo golpes

Eleições não são sinônimo de democracia. Nós brasileiros sabemos bem: durante mais de duas décadas, de 1964 a 1985, eleições foram realizadas no Brasil sob ditadura militar. Democracia não existe sem eleições, mas eleições existem sem democracia. Isto porque, para serem democráticos, processos eleitorais precisam, no mínimo, além de eleições, incluir escolhas reais para os eleitores (liberdade e, ao menos relativa, igualdade de organização e articulação para todas as forças políticas) e liberdade de expressão e manifestação. Alguém tem coragem de dizer que isto existiu em Honduras? Do golpe a eleição meios de comunicação foram fechados quando manifestavam contrariedade com o golpe e sindicatos, organizações e manifestações populares foram reprimidas.

Para o governo norte-americano, no entanto, isto não tem a menor importância, quanto mais pasteurizado o processo eleitoral, melhor. É isto que está contido nas manifestações recentes do governo dos EUA:

Em um comunicado, o Departamento de Estado elogiou os hondurenhos por "exercer pacificamente seu direito democrático de escolher seus lideres" (Washigton Post, 01.12.2009)

A questão não é saber quem vai ser o próximo presidente", Arturo Valenzuela, o novo secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, disse a jornalistas em Washington. "O povo hondurenho decidiu isso. A questão é se o legítimo presidente de Honduras, que foi derrubado em um golpe de Estado, será devolvido ao posto. " (New York Times, 30.11.2009)


A questão, na verdade, é que não ocorreram eleições democráticas em Honduras.

A cortina de fumaça é produzida quando se igualam democracia e eleições. As aparências enganam...


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Esta deveria ser a resposta do PT a FHC

Do Valor Econômico

Autoritarismo popular pelo voto direto

Maria Inês Nassif

05/11/2009

Ao final de sete anos de governo e à véspera de uma eleição em que a sua simples presença de um lado da disputa pode definir a sua sucessão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está dando um nó na cabeça da oposição. Não só pela sua popularidade, mas pela forma como conseguiu usar essa popularidade para mudar completamente uma agenda política e econômica à qual, no primeiro mandato, parecia amarrado.

À direita e à esquerda, essa mudança de agenda está sendo colocada como autocrática. Todavia, como definir historicamente uma mudança de agenda política e econômica num regime democrático sem a suposição de que existe apoio popular a ela? O apoio é a um presidente ou a um outro projeto de poder? Como desvincular o presidente Lula do seu partido político, o PT, quando a história política de ambos é a mesma (e isso é um fato mesmo se constatando que, depois de quase dois mandatos como presidente num regime presidencialista, Lula tornou-se maior que o PT)? Se projetos políticos não se sucederem no poder, em alternância, o que se pode querer de uma democracia? É personalismo ou projeto político diferenciado uma inversão completa de agenda em relação aos governos anteriores?

A definição – ou acusação – imputada a Lula pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo recente publicada em dois jornais paulistas (”Folha de S. Paulo” e “Estado de S. Paulo”), e reiterada em entrevista ao colunista Vinicius Torres Freire, ontem, na “Folha”, de exercer uma “Presidência imperial”, ou ser o artífice de um estado de “apatia com autoritarismo popular”, não parece plausível. Não dá para “acusar” alguém de ser popular. FHC também o foi no seu primeiro mandato e venceu as eleições para a reeleição no primeiro turno, em 1998. Não dá para “acusar” alguém por estar no poder, se essa pessoa foi eleita. FHC também foi, duas vezes. E, como Lula, também tentou, embora não com tanto empenho, fazer o seu sucessor.

Como Lula, Fernando Henrique Cardoso foi vitorioso como principal articulador de uma nova agenda política e econômica – no seu caso, o discurso vitorioso foi o de rompimento com a agenda nacional-populista de Vargas que ainda estava entranhada na sociedade. Como Lula, FHC teve que fazer valer o seu projeto num regime presidencialista com forte dispersão partidária. Ninguém o acusou de autoritário por isso. E não existe nenhuma objetividade numa acusação de autoritarismo se a pessoa que está sendo acusada se submeteu às urnas e mantém-se estritamente no jogo político institucional (ainda anteontem, Michael Bloomberg se elegeu, pela terceira vez, prefeito de Nova York).

A grande arte do Brasil democrático foi a de conseguir criar, mesmo após longo período de ditadura militar, uma cultura democrática. Foi arte, não foi sorte. Um único presidente, Fernando Collor, tinha um perfil que tendia ao autoritarismo mas, salvo a edição do Plano Collor numa conjuntura de hiperinflação no primeiro dia de seu governo – que enxugou drasticamente a liquidez com o confisco de poupança -, o autoritarismo não conseguiu passar de um discurso forte com cores nazistas. Collor mais ladrou do que mordeu: aceitou sem reações um processo de impeachment que acabou se tornando um símbolo da democracia brasileira. O presidente Itamar Franco, eleito como seu vice, governou por dois anos, tinha tradições democráticas e não as negou no poder.

Antes deles, o primeiro presidente civil depois do golpe de 1964 e último a se eleger pela via indireta, José Sarney, teve muitos defeitos, mas seu governo foi fundamental para a consolidação da democracia. Foi nesse período que funcionou a Assembleia Nacional Constituinte. Não consta que Sarney, mesmo com o pecado original de ter antes vivido à sombra do regime autoritário, tenha cometido atentados contra a então tenra democracia. Como vice do presidente eleito pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, Sarney ascendeu ao poder pela morte de um dos grandes articuladores da transição para a democracia. Estava comprometido com as forças democráticas, já majoritárias na sociedade, e não conseguiria sobreviver no poder sem o apoio delas.

Os governos do presidente Fernando Henrique Cardoso tiveram grande conteúdo democrático. FHC vinha da oposição institucional ao regime militar, o MDB, ingressou no PMDB e ascendeu pelo PSDB, partido surgido de um racha do PMDB. FHC, assim como Lula, esteve presente nos grandes movimentos pela democracia no pré-85. No governo, foi um hábil, e democrata, articulador de forças econômicas que emergiam num Brasil que se abria para o capitalismo financeiro internacional. Não houve autoritarismo nessa mudança de agenda: ele articulou forças que se moviam no cenário democrático a partir de mandato ao qual foi investido pelo voto popular. FHC foi bastante popular no final do primeiro governo, quando o Plano Real produziu um ganho de distribuição de renda incomum num país de renda concentrada como o Brasil. Perdeu esse legado no segundo mandato, quando a renda voltou a se concentrar.

O presidente Lula não foi nem mais, nem menos democrático que os outros civis. Foi igualmente democrata. Com mandato popular, articulou forças que se moviam no território da democracia para mudar a agenda política e econômica. A interpretação de que é a figura central de um “autoritarismo popular” não leva em conta a origem do mandato de Lula – o voto, como os dois mandatos de FHC -, mas o fato de que o atual presidente articula outras esferas da sociedade que foram incorporadas ao projeto de poder tucano apenas durante o Plano Real, e dele foram apartadas por sucessivas crises e um modelo de acumulação que se tornou excludente, passado o efeito desconcentrador do êxito anti-inflacionário.

A designação de “autoritarismo” não leva em conta o voto; a “acusação” de popular não faz justiça a quem vota.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mais sobre a Viração...

Do Blog vivapalestinaniteroi.blogspot.com:

NORUEGA ROMPE COM EMPRESA QUE PARTICIPA DA CONSTRUÇÃO DO MURO DO APARTHEID



No início deste mês, o governo norueguês anunciou a retirada de todos os seus investimentos da Elbit Systems, que fabrica o sistema de vigilância instalado em várias partes do muro de separação na Cisjordânia. O ministro das Finanças da Noruega, Kristin Halvorsen, disse que a decisão foi baseada na recomendação do Conselho de Ética de seu ministério. "Nós não pretendemos financiar empresas que contribuem diretamente para a violações do direito internacional . Halvorsen, segundo o jornal israelense Haaretz,explicou que a barreira de separação afeta a liberdade de circulação dos residentes da Margem Ocidental.

Porto Alegre vai deixar seu prefeito Fogaça financiar?

E o Vento Negro fez a viração em Porto Alegre: do humanitarismo à indústria da guerra



A Porto Alegre do Forum Social Mundial está cada vez mais distante. Liderada por José Fogaça, a cidade caminha a passos largos para alinhar-se com o que de mais desumano há no mundo: a indústria da guerra. E, dentro desta indústria, com o que de pior há: empresas que constróem máquinas para assassinato seletivo. Estou falando desta matéria, escondida na página 26 de ZéAgah:

Grupo de Israel investe no RS

Gigante do setor militar aplicará US$ 50 milhões em projeto em sua subsidiária em Porto Alegre

A Elbit Systems anunciou ontem em Haifa, Israel, a ampliação dos seus negócios no Rio Grande do Sul. A gigante da tecnologia militar vai entregar à subsidiária Aeroeletrônica, com sede em Porto Alegre, um contrato de US$ 50 milhões para a modernização de 70 aviões militares.

O vice-presidente executivo da Elbit, Ran Hellerstein, manifestou ainda a intenção de construir na Capital uma nova sede e ampliar o número de funcionários dos atuais 150 para até 500 nos próximos anos. O projeto do novo edifício já tramita na prefeitura. Além disso, o braço gaúcho da Elbit vai absorver a manutenção dos helicópteros argentinos Pampa.

As novidades foram reveladas durante a visita da missão gaúcha que está em Israel. A comitiva foi recebida com bandeiras do Brasil e até chimarrão. Depois da apresentação dos produtos e dos projetos da Elbit, os visitantes conheceram de perto a linha de aviões de vigilância e de combate que voam sem pilotos.

Hellerstein disse que a decisão de investir mais no Brasil foi baseada em fatores como custos atrativos, qualidade da linha de produção e eficiência da mão de obra do Estado.

Nos próximos dias, o Executivo municipal encaminhará à Câmara de Vereadores a proposta de redução da alíquota do ISSQN da Elbit de 5% para 2%. Pela proposta, a empresa se comprometeria a arrecadar o mesmo valor de hoje após a implantação dos novos projetos. A aprovação do incentivo é fundamental para garantir a totalidade do investimento. A direção da Elbit deve estar em Porto Alegre no dia 17 de novembro para um encontro com o prefeito José Fogaça.


O que a mátéria não diz é o seguinte:

A Elbit Systems Group, empresa privada, está implicada na construção de um dos trechos do famigerado Muro do Apartheid, na Cisjordânia. Fornece ao Exército sionista de Israel veículos não-tripulados, manipulados por controle remoto, conhecidos como Drones. De acordo com organizações de solidariedade ao povo palestino, cerca de 100 palestinos morreram em decorrência destes veículos na recente Operação Chumbo Derretido e é muito utilizado nos assassinatos seletivos de lideranças da Resistência Palestina. Além da palestina, esses Drones estão sendo usados no Iraque e no Afeganistão.

Enquanto o governo norueguês, por exemplo, tomou a decisão de retirar o seu investimento da empresa israelita Elbit Systems Ltd, pelo seu papel central na construção do muro de apartheid na Palestina, ao propor reduzir o ISSQN de 5% para 2%, o Prefeito José Fogaça ajuda a financiar esta empresa e associa o cidadão porto-alegrense - e a imagem de Porto Alegre - a essa empresa e as mortes produzidas por suas armas. É esse o futuro que Porto Alegre quer ajudar a construir?

P.S.: Os vereadores de Porto Alegre, especialmente os de oposição, tem a chance - diria, a obrigação - de tomar para sí este debate. Não permitam que o atual prefeito passe isso como a simples atração de empresas e investimentos para Porto Alegre, porque não é. Eis um tema a altura do que aqui já debatemos em outros momentos nesta cidade.