terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Avaliação Governo Serra

Em 2010, por acaso, acontecerão somente eleições presidenciais? Em 2010 nenhum atual governador irá ser candidato a presidente? As respostas a estas perguntas, pelo que estamos lendo, ouvindo e vendo são: sim e sim. Então porque não há pesquisas recentes do Datafolha avaliando o desempenho do governo José Serra, principal nome tucano a sucessão? Porque só de Lula, que nem candidato é?
Uma pista, o atual governador de São Paulo talvez não apareça tão bem na foto assim...
A última pesquisa Datafolha sobre o desempenho do governo Serra data de agosto de 2008, um ano e oito meses após o início de seu mandato, antes das eleições municpais. A pergunta sobre seu desempenho foi feita no bojo da pesquisa de intensões de voto para prefeito em São Paulo. Nela Serra tinha, entre os paulistanos (moradores da capital), 39% de ótimo/bom, 41% de regular e 16% de ruim/péssimo. Os mesmos paulistanos, cerca de dois anos após Alckmin ser eleito governador (dez/2004), tinham a seguinte opinião sobre seu governo: ótimo/bom 55%, regular por 31%, e ruim/péssimo 12%.
Serra é um Alckmin piorado?
Nem vou comparar com o desempenho do governo Lula...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Evolução do quadro eleitoral para 2010 I

Faltam ainda cerca de dois anos para as próximas eleições. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte. Os fatores que estão agindo agora provavelmente estarão lá, claro, mas talvez não agindo com tanta força.

Segundo a pesquisa Datafolha, cerca de 55% dos eleitores não tem simpatia por qualquer partido político. A conclusão, a la conselheiro Acácio, é: embora possam não votar em algum candidato porque pertence a um partido qualquer, nenhum candidato específico receberá o voto destes eleitores em função do partido a que pertencem. Para estes eleitores, o partido é uma variável nula ou negativa. A variável positiva é o candidato. Em geral estes eleitores votarão em função, dos atributos do candidato (imagem) e da agenda articuladora do momento. A proximidade entre imagem e agenda também pode contar, e muito. Para este público isto é válido antes ou durante o calendário eleitoral formal.

Dos candidatos que aparecem na pesquisa, pelo menos três tem o núcleo de sua imagem - isto não está na pesquisa, é opinião pessoal - ligada a figura do "bom gestor": José Serra, Dilma Rousseff e Aécio Neves. Os outros dois, Ciro Gomes e Heloisa Helena são vistos como "radicais livres".
Se Serra, Dilma e Aécio simbolizam coisa semelhante, o que poderia explicar a diferença entre eles e, em particular a vantagem do primeiro? Como não há uma agenda articuladora estabelecida (mas muitas específicas), e nenhum dos três tem condições de fixá-la agora, meu palpite é que o posicionamento reflita o cruzamento das variáveis região e histórico nas disputas eleitorais em geral e nas presidenciais, em especial.

Serra e Aécio, tem uma longa ficha em competições eleitorais. O primeiro já disputou uma eleição presidencial e é eterno candidato a presidente. O segundo, embora venha sendo cogitado por um longo período, nunca disputou eleições presidenciais. Daí, creio, a vantagem de Serra sobre Aécio. É isto, me parece, que explica os percentuais de Serra em outras regiões fora de São Paulo vis a vis Aécio (este fica muito próximo de Dilma em todas as regiões exceto a sudeste). Dilma nunca competiu eleitoralmente, dai, certamente, o degrau que a separa dos outros, em especial de Serra (o único que já disputou eleições presidenciais), neste momento.

O mesmo vale para Ciro Gomes e Heloisa Helena. Com um adicional: "Radicais livres" tendem a estar bem posicionados na em pesquisas enquanto a agenda articuladora está indefinida; ou quando a agenda articuladora se define como de "crise política e/ou econômica" aguda, situação em que tende a criar-se um extremo desejo de mudança e um elevado descrédito de instituições e figuras tradicionais ou ligadas as intituições em descrédito. Collor em 1989 é um bom exemplo disto. Como já disse, hoje a agenda articuladora está indefinida.

A região de procedência é um fator que age no detalhe: a vantagem de Serra e Aécio no sudeste é auto-explicativa. A vantagem de Serra sobre Aécio, além do fator histórico em eleições de que falei acima, é diretamente proporcional ao tamanho de São Paulo vis a vis Minas Gerais. O desempenho de Ciro Gomes e Heloisa Helena no nordeste também tem relação com a variável regional.

Bem, mas ainda resta entender o comportamento dos 45% que tem alguma preferência partidária. Atentem para o seguinte quadro, que não está explicíto na pesquisa Datafolha, mas os dados estão lá, para quem quiser calcular. Destes 45% que tem preferência, 54% preferem o PT (23% do eleitorado total), os partidos que chegam mais perto são PSDB e PMDB, cada um com 15% (7% do eleitorado total). (Aqui uma observação entre parenteses: a preferência pelo PT não sofreu nenhuma queda de 2002 para cá, nem com Waldomiro Diniz, nem com "afrouxamento programático", nem com mensalão: em 2002, próximo da eleição 19% (!) dos eleitores preferiam o PT em pesquisa do mesmo instituto Datafolha). Então porque Dilma não está com 24% das intenções de voto? Por uma razão simples: a variável preferência partidária irá (e digo irá, porque irá mesmo, porque sempre foi assim) atuar perto da eleição. Antes disso não há o chamado do partido, antes disso uma parte dos eleitores com alinhamento (aqueles embora tenham simpatias não são filiados) enxergam somente candidatos: "gestores" ou "radicais livres" de centro, direita ou esquerda e nenhuma agenda. Senhores e senhoras, olhem o quadro de simpatias partidárias e façam suas apostas...








segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A tentação das repostas rápidas.

O resultado eleitoral em Porto Alegre não é simples de entender. Responder rapidamente é um erro. Só uma coisa é incontestável: Fogaça venceu, ponto. Dou um exemplo de interpretação alternativa plausível.

Ouvi, especialmente durante o primeiro turno, mas agora também, dizerem que uma parte da vitória de Fogaça (PMDB-PDT-PTB) deveu-se a divisão dos votos da "esquerda" entre Luciana, Manuela e Maria do Rosário. É, de certa forma, a versão mais aceita e mais "senso comum". Ocorre que, como provou o resultado do segundo turno, uma parte considerável dos votos de Luciana e Manuela não foram seduzidos pelo discurso tradicionalmente atribuido a "esquerda". Luciana atraiu votos conservadores com seu discurso moralista anti-mensalão. Manuela também, com seu discurso do novo, anti-conflito e a aliança com o PPS. Para estes porto-alegrenses, Fogaça era a segunda opção. Se Manuela e Luciana não existissem, muito provavlemente teriam votado em Fogaça no primeiro turno e o levdo a vitória neste momento...

Vale a pena analisar angulos alternativos, com mais vagar, com mais liberdade, desarmadamente...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Respostas mais acertadas?????

Hoje a população de Porto Alegre acordou e descobriu-se envolvida em um segundo turno singular: em vez de dois candidatos, como prevê a lei, teremos três. De um lado Maria do Rosário, de outro Fogaça e ZéAgaH. Quando o candidato Fogaça fica numa saia justa, entra em campo ZéAgaH. Quando o debate termina sem que o candidato Fogaça vá bem, ZéAgaH prolonga o debate e manifesta-se.
Fogaça ficou sem resposta, ou respondeu muito mal, uma série de questões no debate da TVCom, mas principalmente as relativas ao reassentamento das Vilas Dique e Nazaré, a verba perdida para as creches, os desmanches ilegais e a redução do número de alunos nas escolas municipais. No tempo do debate televisionado, prevaleceu a versão apresentada por Maria do Rosário. Mas ZéAgaH decidiu que só que fala a verdade é ZéAgaH, ou Fogaça (mas este parece ser incapaz de comportar-se como prefeito, que dirá como oráculo...).
Não vou cansá-los repetindo uma a uma estas questões. Reproduzo só uma...
No caso da Vila Dique e Nazaré, Maria do Rosário disse que a maioria dos recursos para o reassentamento será do Governo Lula, Fogaça disse que serão somente 25% de recursos do Governo Federal e os outros 75% serão do Municipio. ZéAgaH disse: "O Ministério das Cidades confirma a informação de Fogaça e garante que os custos da remoção serão rateados entre município, governo federal e financiamento da Caixa Econômica Federal a ser assinado. Segundo o ministério, R$ 10 milhões são oriundos de emendas parlamentares, R$ 33,5 milhões são da União a fundo perdido, R$ 38 milhões serão financiados e R$ 10,4 milhões são do município. Fogaça sustenta que haverá R$ 53 milhões da prefeitura, incluindo obras de infra-estrutura. A partir de 2009, o município deve começar a remover os moradores das duas vilas próximas ao aeroporto Salgado Filho para liberar a área e ampliar a pista."
Confirma a informação de Fogaça????
Não confirma nem usando as usando as informações do próprio pasquim:
Governo Lula - R$ 10 milhões de emendas + R$ 33,5 milhões da União a fundo perdido + R$ 38 milhões da Caixa Econômica Federal = R$ 81,5 milhões - 89,1%
Governo municipal (provisóriamente Fogaça) - R$ 10,4 milhões - 10,9%
Total: R$ 91,5 milhões - 100%
Reinventaram a matemática?
Poderia ser dito que Fogaça sustenta que haverá R$ 53 milhões da prefeitura, mas quem disse que o Governo Lula entraria só com 25% - e esta provado que não é só isso - pode inventar R$ 53 milhões, não?

De qualquer forma, vamos refazer a conta, dando mais uma chance ao prefeito atual:
Governo Lula - R$ 81,5 milhões - 60,6%
Versão Fogaça para o aporte municipal - R$ 53 milhões - 39,4%
Total - R$ 134,5 milhões
Que coisa hein? Tentativa de calote eleitoral descarada!!!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O impasse no centro do capitalismo

Impotentes diante das disputas entre frações do capital?


Pesquei do blog do Nassif o texto abaixo.


26/09/08 09:28


Fugindo da solução óbvia


Entenda os impasses em torno do Plano Paulson.


O sistema bancário americano está atulhado com títulos do subprime. Esses papéis foram adquiridos por valores muito baixos, em relação ao seu valor de face. Essa diferença corresponde à rentabilidade esperada pelos bancos especuladores, caso o papel fosse levado até o vencimento.

Existe uma curva de valor desse papel. Ou seja, a cada dia uma parte dos juros é apropriada ao valor inicial de aquisição do papel, até chegar no vencimento com o papel valendo 100% do valor de face.

Vamos a um pequeno exemplo matemático:


1. Uma empresa hipotecária pega sua carteira de contratos de risco (subprime) e vende para um banco a uma taxa de 15% ao ano.


2. Se o prazo médio da carteira for de 120 meses, o banco irá pagar US$ 24,71 por cada US$ 100,00 que terá a receber no vencimento.


3. A cada dia que passa (supondo dias corridos), o valor dessa carteira aumentará 0,0388%. Assim, no 120º dia, por exemplo, a carteira estará valendo US$ 25,90. No 4º ano, estará valendo US$ 43,23. E assim por diante.


Mas suponha que o banco necessita vender essa carteira no mercado. Quanto maior a sua pressa, menor o valor que conseguirá. Se a curva da carteira está em US$ 30,00, por exemplo, na hora de vender no mercado conseguirá, digamos, apenas US$ 15,00.


A discussão sobre o plano Paulson reside nessa diferença. Paulson-Bernanke querem pagar integralmente os US$ 30,00. Os críticos querem que pague os US$ 15,00 para não premiar os especuladores.


Os críticos têm sua razão. Os bancos aceitaram correr riscos em troca de remuneração elevadíssima de 15% ao ano. Se o Tesouro americano paga o preço do papel, eles receberão os 15% (até a data da troca) sem incorrer em perda alguma. Por outro lado, alega Bernanke, se pagar o preço de mercado os bancos ficarão totalmente descapitalizados, com conseqüências drásticas sobre o futuro.


A solução para esse impasse é lógica. Implementá-la exige um presidente com coragem de colocar o guizo no gato. No caso, no poderio de Wall Street. É só pegar o modelo sueco. Paga-se pelos títulos um meio termo entre o valor da curva e o de mercado. A direrença será coberta com ações dos bancos, que ficarão guardadas pelo Tesouro para venda futura. Não haverá descapitalização dos bancos, porque as ações apenas trocarão de mãos.


Os acionistas serão penalizados, assim como os executivos, mas a instituição bancária é preservada. Mas, passada a borracasca, novos investidores adquirirão as ações, valorizadas, ressarcindo o Tesouro e permitindo a recriação do sistema financeiro em outras bases.


Essa é a solução óbvia, até para preservar os valores americanos de respeito ao mercado e ao contribuinte.


enviada por Luis Nassif


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Assim como quis fazer crer que Estado mínimo e Mercado máximo eram a única solução, ponto de partida da ideologia neoliberal, a grande imprensa quer fazer crer que só existe uma solução para a atual crise econômica mundial: a proposta pelo governo Bush. E quer assim fazer crer porque ela representa a quase total socialização dos prejuizos. Quase total porque nesta proposta, como mostrado acima por Nassif, uma pequena minoria não pagaria nada da crise: o capital bancário, fração da classe dominante até agora hegemônica do capitalismo estadunidense. A direção econômica, política e ideológica do sistema capitalista, em especial o americano, esteve em suas mãos, quase que absolutamente, com a anuência das outras frações do capital: a industrial, a agrária e a comercial. Esta unidade foi forte o suficiente, por exemplo, para desmantelar completamente a regulação pelo Estado do mercado financeiro e desregulamentar uma boa parte do mercado de trabalho, sem muita resistência. Porque agora não somente uma resistência, mas um impasse no Congresso Americano?


Alguém viu movimentos de massa nas ruas? Alguém viu greves generalizadas? Alguém viu saques, etc.? Não, porque não há. Há, no máximo o registro do perigo para a elite americana: uma pesquisa que aponta que 80% dos americanos são contra o pacote. Ou, ainda, você acha que os congressistas americanos tem algum viés humanista, estão preocupados, de fato, com os milhares de sem-casa produzidos por esta crise e não contemplados no pacote original? Também não.


Neste cenário, para entender o impasse é preciso ter em conta que a classe dominante estadunidense não é homogênea, embora bastante unida. Há o capital bancário, pivô da crise, mas há também o industrial, o comercial e o agrário. Na verdade o impasse se dá porque todos os US$ 700 bilhões estã destinados, na proposta Bush, para o capital bancário. As outras frações do capital americano não recebem, diretamente, como grupo, nada. Um ou outro setor dentro de uma fração, na medida de sua associação com o capital bancário talvez receba um pouco do butim. Assim, neste cenário, os representantes do capital industrial, agrário e comercial americanos mostraram as garras. Estas frações ameaçam, inclusive, por na agenda eleitoral o debate sobre o pacote (está ai a explicação para a ameaça inicial de McCAin não ir ao debate antes de consensuado o pacote).


Na ausência de um movimento popular e de um partido à esquerda (social-democrata clássico, que seja) organizados e expressivos, a maioria da população americana - e mundial, em certa medida - fica nas mãos desse jogo da classe dominante americana. A exetensão de sua inclusão no jogo político passa a depender, em grande medida, da radicalização da divisão interna da elite política e econômica. O mesmo vale, por óbvio, para o patrimônio público: na solução do impasse não está posta a preservação deste. Somente está posta a construção de uma equação econômica, para os US$ 700 bilhões ou mais, que reflita a real correlação de forças no interior da classe dominante americana.


Por isso, a soluções atualmente postas são variações sobre o mesmo tema. As variações excluem ou incluem partes do capital. Estado e povo são, neste momento, cartas fora do baralho, a não ser como pagadores. Para o surgimento, com peso, de alternativas reais, como a sueca (que protege o Estado), apresentada corretamente por Nassif, seria necessário, no mínimo, um partido social-democrata clássico com alguma densidade social, algum grau de mobilização e/ou organização popular, algum contraponto político internacional forte ao capitalismo (União Soviética, no passado), além da existente divisão de interesses no seio da elite econômica. Nas situações históricas em que ao menos alguns desses elementos se combinaram à uma divisão sólida da classe dominante (intra-nacionais ou não), soluções simples, lineares não foram possíveis. Algum grau de inclusão dos setores populares foi necessário. Um exemplo disso foi o processo de criação da democracia burguesa da origem até o ponto que conhecemos hoje.


Até aqui, no entanto, nesta crise parece só estar presente o último elemento. E a dinâmica política, em uma sociedade totalmente submetida a democracia tradicional, eleitoral, está contida no topo da cadeia alimentar.


Lula disse que é chegada a hora da política. Mas a política, tal qual estruturada hoje, restringe o contingente de atores sociais com real importancia, suspende alternativas e faz do Estado de do povo reféns. Enfim, afasta as soluções óbviamente melhores para toda a sociedade.


Eis porque apostar em formas não-eleitorais de democracia é estratégico.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Procure provas, documentos, informe-se: a real situação das finanças da Prefeitura de Porto Alegre em 2004


O atual governo municipal, ao contrário do que alega, recebeu as contas equilibradas. O que não fez foi por sua conta.

Regra geral em eleições, é a presença de um candidato(a) procurando mostrar o limite de competência de outro que já foi ou é governo. Um dos recursos mais utilizados para fazer isto, é a alegação de que a gestão acusada incompetente "quebrou" financeiramente a esfera de governo em disputa. Algumas vezes, a alegação é verdadeira.

No entanto, no caso de Porto Alegre não é. Vamos aos fatos, do presente para o passado.

O candidato Fogaça vem alegando, desde 2005 e até a presente campanha eleitoral, ter recebido a prefeitura "quebrada", em mal estado financeiro, do governo que o antecedeu, do PT. A base de sua argumentação está assentada em dois argumentos: O governo anterior teria produzido três anos -2002, 2003 e 2004 - de gasto maior do que a arrecadação (o chamado déficit) e, até por conta disso, deixado compromissos de pagamento que deveria ter saldado ainda em seu mandato (dívidas de curto prazo ou, em jargão técnico, Restos a Pagar) sem os recursos correspondentes para pagá-las. Segundo Fogaça, o valor destes compromissos, para os quais deveriam ser deixados recursos, seria de aproximadamente 150 milhões de reais. O valor dos déficits somados: R$ 138 milhões (R$ 34,3 milhões em 2002, R$ 28,6 milhões em 2003 e R$ 75,1 milhões em 2003). De outro lado, Fogaça argumenta que saneou esta suposta situação construindo sucessivos superávits (arrecadação maior do que o gasto) em 2005, 2006 e 2007. O que teria sido gasto a mais até 2004, déficits, teria sido coberto pelo que se gastou a menos a partir de 2005, superávits. Sintese: prefeitura "quebrada" deixada pelo PT e saneada por Fogaça, certo?

Errado.

Comecemos pelo déficit e quem pagou a conta. É fato que houve três anos de gasto superior a arrecadação de 2002 a 2004. Mas não é verdade que estes foram pagos com o que Fogaça economizou de 2005 a 2007. O gráfico abaixo, com dados retirados de documentos oficiais do Tribunal de Contas do Estado e da Secretaria da Fazenda da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, mostra que os gastos a mais de 2002 a 2004 foram cobertos com a poupança feita de 1995 a 2001, ainda durante a gestão do PT, no valor de R$ 161,8 milhões. Isto mesmo, antes dos déficits citados por Fogaça, de 1995 a 2001 a Prefeitura produziu 07 (sete) anos de superávit:

1995 10.660.881,06
1996 6.153.651,80
1997 396.028,15
1998 24.354.804,04
1999 53.615.910,85
2000 16.612.200,26
2001 49.983.555,00
Total 161.777.031,16




Faça a conta: R$ 161,77 milhões menos R$ 138 milhões é igual a sobra de R$ 23,77 milhões. Portanto, argumento número 1 contra a tese do governo Fogaça: a poupança feita de 1995 a 2001 foi mais do que suficiente para cobrir o que se gastou a mais de 2002 a 2004.

Número 2: O Governo de João Verle, findo em 2004, não deixou dívidas sem os recursos correspondentes para pagá-las. Em 31 de dezembro de 2004 a prefeitura tinha em caixa 77,5 milhões de reais, como você poderá conferir no documento disponível no site da prefeitura:

http://www.portoalegre.rs.gov.br/smf/relfins/doc/Executivo.pdf

Ao valor encontrado neste documento, R$ 72,2 milhões, você deverá somar R$ 5,3 milhões referentes a aplicações em títulos do governo federal, registrados em outro relatório, e chegará aos R$ 77,5 milhões.

Fogaça alega que estes recursos eram insuficientes para pagar supostas dívidas de curto prazo que o Governo Verle teria deixado para pagar, no valor de R$ 150 milhões, que seriam, segundo a hipótese de Fogaça, em valores aproximados:

R$ 30 milhões em despesas de exercícios anteriores, registradas já na gestão Fogaça

R$ 40 milhões de dívida com a CEEE - conta de iluminação pública

R$ 80 milhões de restos a pagar registrados

Total: R$ 150 milhões

Vamos por partes:

Dos R$ 30 milhões, alegadamente despesas deixadas para pagar com recursos futuros do governo Fogaça, R$ 28 milhões, por exemplo, são oriundos de serviços do SUS realizados em 2004 mas aprovados pelo governo federal somente em 2005, momento no qual ingressaram os recursos para pagá-los. É como acontece com qualquer trabalhador assalariado: ao trabalhar durante o mês só receberá no inicio do outro, mas o direito de receber o salário é adquirido em cada hora trabalhada no mês em curso. As depesas classificadas aqui por Fogaça estavam, portanto, integralmente cobertas por receitas por direito garantidas em 2004, mas que só ingressaram no inicio de 2005.

Quanto a CEEE, o que esta empresa cobrava da Prefeitura dependia de uma negociação complexa, de longo curso. Havia questionamentos quanto ao valor apresentado pela CEEE e, também, dívidas da desta para com a prefeitura que deveriam reduzir o valor, qualquer que fosse. Tanto foi assim, que a situação só foi objeto de de acordo 02 anos após inciado o governo Fogaça, em final de 2006. E a despesa foi parcelada em 60 meses, 05 anos, mais do que o mandato Fogaça. De todo modo, os recursos para o pagamento destas despesas foi assegurado pela criação de Contribuição de Iluminação Pública, portanto específica para este tipo de despesa, através de lei aprovada em 2003 (ainda no governo Verle), e alterada em 2005.

Por fim, restaram os R$ 80 milhões (dos quais R$ 15 milhões são oriundos da obra da III Perimetral e tinham recursos equivalentes assegurados pelo BID). Estes são os únicos gastos efetivamente deixados pela Prefeitura para serem pagos na gestão Fogaça e estavam cobertos pela já citada disponibilidade de caixa, R$ 77,5 milhões e por recursos do BID com recebimento assegurado por contrato de financiamento da III Perimetral. Por serem os únicos que assim podem ser considerados, foram os únicos registrados oficialmente pela prefeitura em seus relatórios de 2004. Você pode ver este documento no site da prefeitura (neste relatório, na linha onde está o código 2001 você poderá ver os valores garantidos pelo financiamento do BID):

www.portoalegre.rs.gov.br/smf/relfins/doc/Anexo VI - RestosPagar 3ºQ.pdf



Este não é, definitivamente, o quadro de uma Prefeitura quebrada. Se o atual governo perdeu tempo não foi procurando formas de solucionar uma crise, porque ela não existia mais ao final de 2004 e inicio de 2005. Os déficits registrados de 2002 a 2004 foram financiados com os superávits de 1995 a 2001 e os recursos deixados pelo governo Verle em 2004 foram mais do que suficientes para pagar as contas.

O registro oficial da situação regular e equilibrada das contas públicas está claro na aprovação, pelo Tribunal de Contas do RS, das contas de 2004 do governo Verle. No sua aprovação, aliás, é mencionada explicitamente, e considerada falha e parcial, a mesma conta feita por Fogaça para "provar" uma suposta crise financeira por ele herdada. Neste ponto o TCE-RS registra que o governo Verle deixou equacionadas questões como a da CEEE. A decisão do TCE-RS está acessível a qualquer cidad@o no site do Tribunal: www.tce.rs.gov.br.

Portanto, quem alega a existência de uma situação de insolvência ao final de 2004 , car@ cidad@o, só pode estar querendo jogar uma cortina de fumaça em suas deficiências... Mas este é outro capítulo da novela...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Texto do RS URGENTE

Permito-me reproduzir abaixo texto do Marco W. do RS URGENTE. Análise perfeita.
O triunfo (e a falácia) do culto à novidade

Desde a eleição de Germano Rigotto (PMDB) para o governo gaúcho, em 2002, a apologia do novo tornou-se uma categoria central nos discursos eleitorais no Estado. Em 2006, Yeda Crusius (PSDB) apostou todas suas fichas no “novo jeito de governar”. E levou. Agora, em 2008, na campanha eleitoral em Porto Alegre, mais uma vez o “novo” apresenta-se à população. Com um agravante. Desta vez, há uma disputa entre mais de uma candidatura sobre quem é, realmente, a essência do novo. Em vários momentos, os programas eleitorais no rádio e na TV e os debates entre candidatos acabam se revelando um surto de euforia pela paternidade ou maternidade do novo. Para além de velhos truques publicitários que retocam e redesenham a embalagem de conhecidos produtos para apresentá-los como novidade, há um elemento de recusa e desprezo pela memória e pela história política do Estado.
Elas, a memória, a história e a experiência, são apresentadas como coisas velhas que devem ser deixadas para trás. O que importa, afirma incessantemente esse discurso, é olhar para frente, é valorizar o novo, é ter uma nova atitude para governar. No lugar da política, entra a gestão. Ao invés da história, a vitrine reformada. O que já se chamou outrora “debate programático” deu lugar a duelos de atitudes. Pelo andar da carruagem, na próxima eleição, poderia se economizar tempo e dinheiro delegando a decisão para uma comissão de publicitários, marqueteiros e consumidores que avaliariam em um festival qual o melhor produto para assegurar a felicidade e o bem-estar da população. Para que insistir neste negócio de política, de debates de idéias e programas, essas velharias que só atrapalham o progresso?
Há uma falácia embutida – e não explicitada – nesta apologia do novo. Ela vem acompanhada de uma crítica à história de polarização política no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, apresentada como o “velho”. Ao fazer essa crítica, porém, a dita polarização, expulsa pela porta da frente, retorna pela janela dos fundos. Disfarçada. Trata-se, agora, de uma polarização entre o novo e o antigo. Ou melhor dizendo, entre o que se apresenta como novo e o que é apresentado como antigo. A aplicação desta falácia ao discurso eleitoral vem dominando (com sucesso) o debate político gaúcho desde a campanha de Rigotto. O que é mais curioso é que esse predomínio se manifesta agora, mais uma vez, em meio às comemorações da Semana Farroupilha, quando o passado e a memória do Estado são cantados em prosa e verso. Esse canto, transformado em retórica vazia, deu lugar a um delírio eufórico sobre quem é a encarnação da novidade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Erro de comparação

Ontem assisti a uma auto-comparação feita por Manuela D´Ávila em seu programa eleitoral. Na tentativa de rebater argumentos quanto a uma sua suposta falta de preparo para ser prefeita, que seria sub-produto de sua juventude (Manuela tem 27 anos)e/ou inexperiência, auto-comparou-se a três prefeitos que muito fizeram para Porto Alegre. A dois, José Loureiro da Silva e Leonel de Moura Brizola, Manuela chama de "jovens" prefeitos e ao outro, Olívio Dutra, não atribui a juventude, mas afirma que se tornou prefeito após apenas dois anos de mandato parlamentar. Com isso parece tentar sugerir que juventude (supostamente o caso de Loureiro e Brizola) e/ou inexperiência (supostamente Olívio Dutra) não são barreiras para o exercício do mandato de prefeito de Porto Alegre.
Pode até ser que a idade de Manuela, sua juventude, não seja barreira. Não vou entrar nesta discussão aqui, agora. No entanto, os exemplos usados por Manuela como prova não me parecem adequados. Ambos, Loureiro da Silva e Brizola, quando assumiram a prefeitura já estavam fora da faixa etária de Manuela. Loureiro da Silva nasceu em 1902, tinha 35 anos quando tornou-se prefeito de Porto Alegre pela primeira vez em 1937. 08 anos a mais do que Manuela hoje tem. Brizola, nascido em 1922, tinha 33 anos quando governou Porto Alegre pela primeira vez, em 1955. 06 anos mais do que Manuela. Não podiam ser considerados na terceira idade, mas também não eram exatamente jovens, ao menos não como Manuela.
O mesmo pode ser dito quanto a questão da experiência. Nenhum deles, muito menos Olívio Dutra poderia ser considerado com pouca experiência quando assumiu a prefeitura. Veja seu currículo, resumidamente, à época:
Funcionário do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) desde 1961, foi transferido para Porto Alegre em 1970, sendo eleito presidente do Sindicato dos Bancários da Capital em 1975.
Em 1979, período da ditadura militar, Olívio Dutra foi um dos líderes da greve de trabalhadores no Rio Grande do Sul, razão pela qual foi preso e teve seu mandato cassado.
Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.
Foi presidente estadual até 1986 e eleito para a presidência nacional do partido no ano seguinte.
Em 1982 foi candidato a governador pelo PT obtendo 50.713 votos e consolidando a estruturação do partido no RS.
Em agosto de 1983, ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Elegeu-se deputado federal constituinte em 1986.
Quando foi eleito prefeito já acumulava vinte e sete (27) anos como bancário, 13 anos desde sua eleição para presidente do sindicato dos bancários, greve, enfrentamento com a ditadura, cassassão de mandato sindical, protagonismo na criação do maior partido de massas da história do país, presidência estadual e nacional deste partido, fundação da CUT e... 02 anos de mandato como deputado parlamentar (constituinte), única referência feita por Manuela. De pouca experiência nada.
O mesmo pode ser dito de Loureiro e Brizola que, embora tendo menos idade que Olívio (este tinha 47 anos quando assumiu a prefeitura pela primeira vez), quando assumiram a prefeitura já possuiam um vasto currículo. Vejamos seus currículos até o primeiro governo de cada um na prefeitura:
Brizola
Em 1936, matriculou-se no Instituto Agrícola de Viamão, perto de Porto Alegre, formando-se técnico rural em 1939. Nessa época, trabalhou como graxeiro numa refinaria em Gravataí (RS)
Em 1940, mudou-se para Porto Alegre e obteve emprego no serviço de parques e jardins da prefeitura. Para continuar seus estudos, matriculou-se no Colégio Júlio de Castilhos para fazer o curso supletivo. Em 1945, começou a cursar engenharia civil na Universidade do Rio Grande do Sul, formando-se em 1949.
Simpatizante do presidente Getúlio Vargas, Brizola ingressou no PTB em agosto de 1945, integrando o primeiro núcleo gaúcho do novo partido.
Em 19 de janeiro de 1947, ele foi eleito deputado estadual, participando da elaboração da Constituição gaúcha.
No mesmo pleito, Brizola foi reeleito deputado estadual.
Em março de 1951, Brizola tornou-se líder do PTB na Assembléia Legislativa e pouco depois se candidatou a prefeito de Porto Alegre. Perdeu o pleito, em 1º de novembro, por pouco mais de 1% dos votos.
Em 1952, ele foi nomeado secretário de Obras do governador Ernesto Dornelles (PTB).
Em 1954, foi eleito deputado federal pelo PTB.
Quando foi eleito prefeito, Brizola já tinha mais de 10 anos de experiência política: ajudara a construir o PTB, partido que em influência e solidez organizativa entre as classes populares somente possa se comparado com o PT, fora deputado estadual constituinte, candidato a prefeito, secretário estadual de obras e deputado federal. Jovem até podia ser, mas não com pouca experiência.
Loureiro da Silva
Aos 20 anos, foi nomeado por Borges de Medeiros promotor público em Camaquã, iniciando sua vida pública.
Intendente em Alegrete, Garibaldi, Taquara e Gravataí
Deputado Constituinte, em 1935
Duas vezes diretor da Carteira Agrícola e Industrial do Banco do Brasil
Estancieiro
Quando prefeito pela primeira vez, em 1937, Loureiro já havia inciado sua vida pública há, no mínimo, 15 anos. Sua história mostra que já acumulava uma grande experiência política quando tornou-se prefeito.
Já Manuela, pelo que refere seu currículo em seu site e no site do congresso nacional, marca o ínicio de sua vida pública em 2001. Sua experiência política em cargos de direção registrada em currículo acumula 7 anos, e concentra-se no movimento estudantil, em cerca de 05 anos na direção partidária (PCdoB) e em mandatos parlamentares (2 anos como veradora e 1 ano e 9 meses como deputada federal). Significativamente menos do que Olívio Dutra em 1988, Brizola em 1955 e Loureiro da Silva em 1937.
Mal comparou-se, portanto.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Se o Brasil não fizer, alguém fará...

Ainda vão descobrir algum estrangeiro torturado nos porões da ditadura brasileira, ou ao menos em porões de outras ditaduras latino americanas (como a uruguaia, a chilena e a argentina). Aliás, estão chegando perto. Ou o Brasil (executivo e judiciário) trata disso ou será, constrangedoramente, instado a tratar. Se não for porque é o caminho mais correto, que seja para evitar a vergonha de não resolver o que deve por suas próprias pernas.

Leiam a matéria do El País:

España entrega a Italia a un ex fiscal de la dictadura chilena
EFE - Roma - 14/08/2008


El ex fiscal militar durante la dictadura chilena Alfonso Podlech Michaud fue entregado ayer a Italia desde España y se encuentra encarcelado en la prisión romana de Rebibbia, según confirmaron fuentes del centro penitenciario.


Podlech Michaud había sido detenido el pasado 27 de julio en el aeropuerto madrileño de Barajas, en cumplimiento de una orden europea de detención y entrega emitida por las autoridades italianas.
El ex fiscal militar será interrogado en los próximos días por el fiscal Giancarlo Capaldo, que se ocupa de la desaparición de 25 italianos durante la Operación Cóndor, como se denominó la acción de las dictaduras de Argentina, Paraguay, Uruguay, Chile, Brasil y Bolivia para acabar con los opositores en los años setenta y ochenta del pasado siglo XX.
La Operación Cóndor, en la que colaboraron varias dictaduras sudamericanas para eliminar a disidentes, fue la base de la investigación del juez Baltasar Garzón que propició la detención, en Londres, del ex dictador Augusto Pinochet en 1998.
Garzón pidió la detención y entrega de Pinochet para ser juzgado por genocidio y, aunque éste fue llevado finalmente a Chile, estuvo año y medio detenido en Londres en situación de arresto domiciliario.
En particular, el fiscal acusa a Podlech de la desaparición del ex sacerdote de origen italiano Omar Venturelli en 1973. El nombre de Podlech se encontraba entre las 140 órdenes de arresto y extradición emitidas por la justicia italiana a finales del año pasado contra ex militares y políticos de Argentina, Bolivia, Brasil, Chile y Perú.
Militar uruguayo
En los próximos días se espera también la extradición del ex militar uruguayo Antranig Ohannessian, detenido en marzo en el aeropuerto de Buenos Aires (Argentina), y acusado del secuestro y asesinato de cuatro ciudadanos italianos durante una operación contra el Partido para la Victoria del Pueblo (PVP) entre septiembre y octubre del año 1976.
El fiscal confió en que las declaraciones que efectúen ambos ex militares serán muy importantes para el futuro proceso judicial, que espera que se pueda iniciar antes de finales de año en Roma.

Americanismos grosseiros de ZéAgah


Zero Hora
14 de agosto de 2008 N° 15695
GUERRA NO CÁUCASO
EUA cobram trégua da Rússia
Ontem, Moscou teria desrespeitado o acordo de cessar-fogo

A guerra é na Geórgia, mas foram os Estados Unidos que ontem endureceram o discurso e atacaram a Rússia – reacendendo a tensão que assombrou o mundo durante os anos de Guerra Fria. Diante da suposta violação do acordo de cessar-fogo dos russos, o presidente americano, George W. Bush, deixou de lado a postura discreta e tomou partido no conflito.Ele fez um pronunciamento logo depois de receber a notícia de que os russos haviam rompido a trégua, ao realizarem novas investidas em território georgiano. Os EUA exigiram de Moscou o cumprimento do cessar-fogo assinado na terça-feira e acusaram suas tropas de estarem bloqueando as principais vias da Geórgia. Bush decidiu enviar a secretária de Estado, Condoleezza Rice, a Paris, na França, e a Tiblisi, capital da Geórgia, para tentar auxiliar a solucionar a crise na região do Cáucaso.
– Nós não estamos em 1968 e na invasão da Checoslováquia, onde a Rússia pode ameaçar um vizinho, ocupar uma capital e derrubar um governo. As coisas mudaram – disse Condoleezza.
...
Ontem falei disto aqui no Blog. Nenhuma novidade, ZéAgah é lento jornalismo. Lento e limitado, porque cego pelo viés.
Em algum lugar da matéria você encontra alguma informação sobre qual a diferença entre 68 e os dias atuais? Não. Porque os EUA aceitavam, em 68, a Rússia ameaçando um país vizinho e derrubando governos, como diz Condoleezza?
Dei a dica: naquela época o mundo estava, por acordo, o de Yalta, pós-segunda guerra, dividido em 2/3 sob o dominio dos EUA e 1/3 da União Soviética. Discursos e ideologias à parte, salvo algumas - importantes - tensões localizadas, Vietnam por exemplo, manteve-se assim por um longo período. É por isso que Condoleezza diz o que disse. Numa coisa ela está certa, não estamos em 68: Não há acordo agora. As coisas mudaram. Noutra, não: Se não há acordo, pode-se quase tudo. Ao ouvir isto, Putin deve ter pensado: e eles, podem invadir o Iraque, contra todas as opiniões?
Esta é mais uma tensão que poderá, ou não, levar a um acordo. O Iraque não levou. Sobram instâncias de coordenação, mas ainda nenhuma tem capacidade para estabelecer um acordo geral legítimo: G8, OTAN, Forum de Davos, etc. A segunda guerra, e muita coisa que aconteceu antes e durante, levou a Yalta. Mas havia, ao final desta, mais do que uma disputa entre países capitalistas imperialistas. E agora? O papel ideológico, não-capitalista, da União Soviética está vago... O conflito atual é "só" por melhores condições para a acumulação de capital para a Rússia ou para os Estados Unidos.
Mas este raciocínio, importante para entender o que está acontecendo, você não vê em ZéAgah. O que você vê? Vê os EUA no papel de disciplinador do mundo. Vê a possibilidade de retorno da Guerra Fria. Não vê porque o cessar-fogo não se cumpre integralmente, mesmo com os EUA levantando a voz. Não vê a guerra por gás e petróleo. Não vê porque Putin, quem verdadeiramente manda na Rússia, ainda não se pronunciou. Não vê que assim é porque está apenas começando.
No acordo de cessar-fogo não estão os principais elementos do conflito. Por isso ele é precário.
Embora tenha a informação, nas falas de Condoleezza e Sergei Lavrov, ZéAgah não informa. Usa como entrelinha da descrição dos fatos o viés do alinhamento ideológico/moralista pró-EUA: EUA=defesa dos bons valores (liberdade, etc.). Mas o fato é que no Iraque e na Geórgia, por dois caminhos diferentes, os EUA miram, exclusivamente, a preservação de seus interesses econômicos. Com governos legítimos (Georgia) ou ilegítimos (Iraque). E a Rússia, também.
Leia, a partir disto que disse, a declaração de Sergei Lavrov, chanceler russo, na mesma matéria de ZéAgah:
A liderança da Geórgia é um projeto especial para os EUA. Em algum momento, será necessário escolher entre apoiar esse projeto virtual ou então apoiar uma parceria real em questões que requerem uma ação coletiva – disse o chanceler russo, Sergei Lavrov.
Esta "parceria" estava fixada em Yalta. Não existe mais. Mas a Rússia, Putin, mandou avisar que está de volta ao palco. Em iguais condições...