terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Tropa de Elite, prêmio em Berlim



Vou dar uma de Polyanna. Que bom que Tropa de Elite não foi indicado para o Oscar; caso contrário - e em sendo premiado no show gringo - diriam: "Faz bem o gosto dos ianques, violência, facismo, tortura ...". Como não foi, tendo sido premiado em um Festival que, em geral, é referência para cinéfilos cult, escolhido por jurados presididos por Costa-Gravas, icone do cinema politizado (como bem lembrado por Diario Gauche), aguardo comentários dos críticos sobre a escolha. Parece que andam emudecidos, perplexos.

Enquanto isso reafirmo meu comentário feito no passado outubro de 2007. Não sei se quem julgou viu do mesmo jeito, mas, como tentei mostrar no post que repetirei abaixo, trata-se de um filme denso, digno do Leão de Ouro que ganhou em Berlim. Vivas a arte brasileira!


Outubro de 2007

Tropa de Elite



Muito tem se falado - quase todos os blogs, revistas e jornais que conheço falaram - sobre o filme Tropa de Elite. Alguns falaram bem, outros bastante mal. Ninguém ficou alheio. Não gostaria de falar tanto dele em sí, de sua forma ou conteúdo, mas da discussão em torno. Neste aspecto destaco dois problemas em boa parte das análises correntes, com honrosas exceções: 1) há um problema de ênfase na análise formal e do conteúdo vis a vis uma abordagem do impacto cultural/social do filme e 2) há um problema de mérito na análise formal.

Me chamou a atenção um ponto comum em praticamente todas as análises do filme. Discute-se o filme, sobretudo, no que ele constitui como linguagem em sí mesma. As questões são, em geral, se as colocações de sujeitos e objetos e sua sintaxe refletem, verdadeiramente, a “realidade” ou se constituem um projeto de alteração da mesma de tipo “progressista” ou “facista”. Assim, a "função sintática" do Capitão Nascimento ora é apresentada, pela crítica, como elemento cuja ação projeta a solução para a corrupção e a criminalidade, ora é tida como amplificadora da violência e da maldade pura e simples. Já nos playboys e "playgirls" de classe média apresentados no filme, algumas análises vêem o perfeito retrato do sujeito que sustenta, quase que absolutamente, toda a cadeia de tráfico/criminalidade e violência/sadismo associado, outros enxergam uma caricatura grosseira e simplificadora, uma expressão incompleta ou falsa. Assim, em um primeiro movimento, discutem-se as falhas ou acertos desta linguagem, em termos, por exemplo, de sua verossimilhança quanto as relações de causa e efeito que se propôs a representar: se o filme - a linguagem, sua sintaxe e sua gramática - situa os personagens (fenômenos ou sujeitos) em sua hierarquia causal "correta", como presente e como projeto.

Em um segundo movimento, de um extremo a outro, ainda dentro da análise formal e de conteúdo do filme em si, vemos a análise focada na tarefa de atribuir uma gramática e uma sintaxe naturais - contidas originalmente - ao filme. Praticamente todas as análises fixam-se na suposição de posições verdadeiras - impressas e fixadas no ato de criação da película por intenção do autor - para cada personagem e fenômeno apresentado no filme. É absolutamente necessária esta análise da linguagem explícita ou implícita no filme, de uma suposta codificação que, na falta de melhor palavra, “tipifica” (no sentido weberiano) a realidade. Ela pode revelar uma parte, razoável, da potência da obra, de sua possibilidade e vetor de impacto. Isto é, a análise deste tipo pode, bem feita, apresentar indicadores da capacidade de uma obra quanto a produção de significados e sua perenidade. Mas esta análise não deveria pretender-se completa.


Não pode pretender-se completa porque não é possível identificar em toda a extensão a potência da obra sem, ao mesmo tempo, analisar sua dinâmica, o impacto que produz. Não apenas em extensão quantitativa, mas também em qualidade, em termos de diversidade de significados. Creio que a riqueza de uma obra só pode ser plenamente identificada quando, ao lado de uma análise dela em si, de uma crítica da substância, da linguagem inerente, enfilera-se uma crítica dos efeitos que está a produzir sobre quem a observa. Uma obra é tão mais rica quanto atinge, sem perder conteúdo, um nível de abstração capaz de atrair e chamar a reflexão indivíduos ou grupos com formação cultural diversa.


Enfim, a análise está a destacar o elemento formal e de conteúdo do filme e só secundariamente fazendo uma análise do impacto social do mesmo. Além deste problema, creio que existe um problema de mérito nas análises do filme em si.


Tanto o tipo de análise dos que enxergam no filme um projeto de solução para a criminalidade via “pancada” como os que o classificam como “fascista”, dizem que o filme é uma linguagem com hierarquia, com elementos que precedem e suscedem, que são mais ou menos importantes. E é esta visão desta hierarquia que orienta, nestas análises, o julgamento para o bem ou para o mal do filme, que permite classificá-lo de um jeito ou de outro. No entanto, creio que o ponto de partida deveria ser a constatação de que Tropa de Elite adota uma linguagem que não hierarquiza personagens e fenômenos. Não há personagens mais ou menos culpados, mais ou menos frágeis. Todos os personagens têm uma estrutura de escolhas. Não há, também uma relação mais importante do que outra, um problema mais relevante do que outro. A “realidade explicativa” do filme é praticamente tautológica. Se assim é, e creio que é, não se pode ler Tropa de Elite como a defesa de um projeto, mas como a denúncia de uma situação inercial.


O que o filme é, ou melhor, manifestará deve ser entendido a partir de uma análise formal considerando a natureza não hierárquica da justaposição de seus personagens e, sobretudo por conta disto, da reação livre que produzirá em seus espectadores.


Sendo assim, o essencial para quem quer tratar do filme é, na verdade, elaborar um discurso diante dos TEMAS que põe em pauta. O filme é, sobretudo, a amplificação de uma agenda. Faça seu discurso, fale da violência, da corrupção, da polícia, porque esta é a pauta que o filme provocou em milhões de pessoas que o assistiram. E a impressão delas está em disputa. Mas não será hegemônico o discurso que negar relevância artística e legitimidade ao filme.


A arte tem destes maneirismos.


“O SENHOR VAI DORMIR 05?”

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pesquisa CNT/SENSUS e a maior geladeira do mundo

A turma do PIG (Partido da Imprensa Golpista, expressão cunhada por Paulo Henrique Amorim) na maior geladeira do mundo


A pesquisa CNT/SENSUS, que apresenta dados sobre a aprovação do governo Lula, me fez lembrar um "ocorrido", como diz o gaúcho. Estava em uma farmácia em Rosário do Sul, no ínicio deste mês, quando um cidadão de aproximadamente 50 anos, entre o "popular" e o "classe média", inicia uma conversa comigo no caixa. Até ai vocês dirão: situação típica do interior gaúcho, todo mundo puxa prosa... O inesperado foi o conteúdo.
Disse ele:
- Ó o remédio do Lula?
Perguntei:
- Como?
Ele:
- Este remédio aqui, antes do Lula eu pagava R$ 17,50. Agora pago R$ 0,55. Como é que eu vou falar mal do homem? Não dá prá falar mal.
Isso aconteceu no Rio Grande do Sul, onde o Lula perdeu as eleições presidenciais e o PT perdeu as duas últimas estaduais.
Todos os dias, em todos os veículos da grande mídia do P.I.G., crise do mensalão, crise do Renan Calheiros, crise do cartão corporativo e... quase 60% de aprovação, a melhor avaliação desde a posse em 2003, no seu primeiro mandato.
O problema do P.I.G. é que o povo, além de ler jornal, ouvir rádio e TV, também come, bebe, anda, precisa de saúde, etc. Num momento lê o jornal e concorda que as coisas estão erradas, que político é tudo ladrão, etc. No outro, vai a farmácia e tem dificuldade de falar mal do "homem": Como quem resolve o problema da dor é o remédio...
A análise da CNT/SENSUS é a mais pura verdade:

“O presidente Lula continua blindado. A sua avaliação positiva mantém-se alta em função dos bons resultados da economia e dos programas sociais, além do fato de ele ter um discurso de fácil assimilação popular. Porém, como mostram os números da pesquisa referentes a avaliação do impacto na população do caso dos cartões corporativos, é importante que o Governo aproveite o bom momento exigindo uma conduta exemplar de seus funcionários e ministros”.

Como dizia a campanha de Bill Clinton a presidência dos EUA, em 1992, contra Bush pai: It´s the economy, stupid! (É a economia, estúpido!).
Aqui, agregue-se: It´s the social program, stupid! (É o programa social, estúpido!)
Diante da pesquisa, a frase de Lula sobre a Antartica: "É a maior geladeira que já vi na vida", caberia bem na boca do P.I.G. para descrever o sentimento do povão com suas estocadas no atual governo nacional.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Problemas da Democracia eleitoral II: descrédito na representação

Continuando a jornada...

Além da instituição do voto - o ato de autorizar a representação -, outras instituições da chamada democracia representativa parecem estar fazendo água. Falo dos governos, partidos e parlamentos.
No Brasil, segundo pesquisa do Latinobarômetro de 2007, somente 35% da população confia no governo. Na América Latina, 39%. Na Europa, segundo o Eurobarômetro/2007, este número não é diferente: apenas 34% confia no governo. No caso dos parlamentos, os números são iguais ou piores: América Latina - só 29% confia; Europa, 35%. E no caso dos partidos, os brasileiros e os latino-americanos apresentam confiança ainda menor: 16% e 20%, respectivamente.

Assim sendo, soma-se ao descrédito no poder do voto o descrédito em relação a algum desempenho positivo das principais instituições do governo representativo: partidos, governos e parlamentos.
É possível melhorar o desempenho destas instituições? Em caso positivo, como? Aperfeiçoando-as ou criando novas instituições que façam o que elas não fazem ou que, ao menos, as induzam a um melhor desempenho?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Problemas da Democracia Eleitoral I: Representação com baixa representatividade

Este ano vamos as urnas novamente. Vamos é força de expressão. Alguns, muitos, não vão. Ou se vão, optam por não votar em nenhum candidato.

Mesmo sendo obrigatório o ato de votar aqui no Brasil, cerca de 18% da população apta absteve-se do voto em 2006.

Outra. Entre os que foram votar no Brasil em 2006, aproximadamente 8% não votou em nenhum candidato (em branco ou nulo) a presidente.

Ou seja, 26% da população abriu mão do direito de escolher algum representante para o principal cargo representativo do país.

Então, ao final, 74% da população apta ao voto decidiu votar em alguém para presidente. Deste, 60% votaram no candidato vencedor, Lula. Não é díficil fazer a conta e descobrir que o vencedor representou 44% dos eleitores com direito a voto.

Se recuarmos no tempo, a 1998, não veremos números muito diferentes. Em 1998, 21% se absteve e 18% votou branco ou nulo: 39% optou por não escolher nenhum candidato, isto é, não autorizou nenhum dos candiatos a representá-lo (a). Dos 61% (!) restantes, que votaram em algum candidato para presidente, 53% votaram no vencedor, FHC, que assim foi eleito com a autorização esmagadora de uma maioria de 32% da população com direito a voto no país!!!

E a conversão de votos em representantes no parlamento não foge muito a esta regra.

Como diria o piloto da Apolo 13: "Houston, we have a problem".

Só isto deveria ser suficiente para por de molho as barbas de quem acha que a existência de eleições livres e competitivas pode ser critério, mesmo mínimo, de democracia. Democracia deve conter eleições, mas mesmo a definição mínima de democracia deve conter bem mais...

E o problema da representatividade da representação política centrada no mecanismo eleitoral não é privilégio do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 50% da população em idade de votar abstém-se.

E este é apenas uns dos aspectos problemáticos de se centrar democracia no conceito de eleições...


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Voltando...

Buenas... Desde o ano passado não escrevo. Breve descanso para refrescar a mente. Neste retorno, um teste de interatividade. Peço a vocês que sugiram temas para serem tratados por este blogueiro novato.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Eleições 2008 II: polarização

E dá-lhe pesquisa sobre as eleições de 2008 em Porto Alegre. Menos de uma semana depois da Datafolha, outra, feita pelo Instituto Methodus, foi divulgada.

Ambas mostram o óbvio. A um ano da eleição, Fogaça não está conseguindo, com seu governo, manter a vantagem obtida em 2004. As forças que ele enfrentou em 2004 recuperaram boa parte do terreno, estabelecendo um cenário de equilibrio e polarização.

Algumas observações, agora também com os números da pesquisa Methodus.

Primeiro. Em ambas as pesquisas é possível deduzir em que termos, provavelmente, se dará a disputa no segundo turno. O arranjo atual de candidaturas cristaliza um claro e estável equilíbrio de preferências entre situação e oposição nas eleições de 2008. De um lado estão PMDB, DEM, PDT, PP e PSDB. De outro, PT, PCdoB e PSol. Já como apontava a pesquisa Datafolha, o percentual de cada bloco varia dependendo do cenário, mas em todos aponta um empate técnico entre eles, tendo em vista a margem de erro de 4% da pesquisa. Alteram-se os candidatos, redistribuem-se preferências intra-blocos, mas não altera-se, com significância estatística, o espaço de cada um dos grupos no total de votos. Sendo assim, o mais provável é contarmos com um candidato de cada bloco no segundo turno.

Diferentemente da pesquisa Datafolha, a do Instituto Methodus apresenta simulações de 2º turno, o que permite visualizar com mais clareza e certeza a acima mencionada observação sobre equilíbrio altamente estável entre blocos. Com estas simulações, vemos que os votos dispersos entre os candidatos da oposição no primeiro turno transferem-se automaticamente para o candidato da oposição que alcança o segundo turno, qualquer que seja ele(a) - Miguel Rosseto, Maria do Rosário ou Manuela. Qualquer um destes candidatos, chegando ao 2º turno, tem chances estatísticas iguais de bater Fogaça. Já os votos dados a situação no 1º turno, no 2º turno convergem automaticamente para o candidato Fogaça. A presença destes candidatos em competição no 2º turno, produz um persistente empate técnico.

Outro aspecto "revelado" pelas simulações de 2º turno é a importância dos votos de centro nesta eleição. Os dois candidatos que, ao menos simbolicamente, mais se deslocam do centro - à esquerda Luciana Genro e à direita Onix Lorenzoni - não se viabilizam no 2º turno ao enfrentar o candidato de situação. Faltaram cenários entre candidaturas de oposição mais tendentes ao centro versus Luciana e Onix, mas acredito que a situação se repetiria, beneficiando candidaturas com uma imagem mais ao centro. O eleitor pragmático será decisivo, como foi em 2004. É uma pista para a agenda da disputa: neste cenário temas locais, soluções para questões práticas da cidade, tendem a adquirir importância central...

Segundo. Assim como na Datafolha, não é possível, na pesquisa feita pelo Instituto Methodus, saber com segurança os nomes que se enfrentarão no segundo turno. Fogaça, Manuela, Miguel Rosseto, Maria do Rosário, Luciana Genro e Onix Lorenzoni, todos estes tem percentuais da preferência do eleitor que, considerada a margem de erro, os posiciona em pelo menos segundo lugar. Fogaça, por exemplo, que lidera em todos os cenários, pode estatísticamente - considerada a margem de erro de 4% - ficar fora, ser segundo ou primeiro colocado no primeiro turno. Portanto, em função da margem de erro e do elevado número de candidatos com a mesma densidade eleitoral, é atividade de prestidigitação a tentativa de analisar tomando somente as candidaturas individualmente.

De qualquer forma ainda falta praticamente um ano para o voto, muita coisa pode mudar...


Para ver a pesquisa Methodus na íntegra: Instituto Methodus

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Triste trajetória do Estado riograndense: o capítulo das OSCIPS




De Estado forte, primeiro a sair da condição de Estado oligárquico, em 1891-93, primeiro exemplo de Estado burguês republicano no Brasil (no mesmo período), por isso mesmo promotor da revolução de 30, cujo conteúdo modernizou economicamente o país transformando a indústria em seu motor, a Estado falido. Estado falido, sem capacidade econômica e, por isso mesmo, incapaz de coesionar a sociedade, lhe dar direção, estabelecer-se como exemplo político e influenciar positivamente, mesmo dentro dos estreitos limites que nosso sistema federativo atual delega as unidades regionais, a política nacional.

Agora, as suas elites econômicas, através de seu imbecil mandarinato "muderno" , interessada somente em encontrar formas de alimentar-se dos já exauridos recursos públicos, encontrou a solução: Voltemos ao domínio do Estado oligárquico, onde os recursos públicos são administrados diretamente pelo interesse privado: por indivíduos que não representam partidos eleitos ou fizeram concurso público. Indivíduos cujo interesse é somente seu próprio interesse. E ainda tem o desplante de chamar isso de moderno. Moderna é a profissionalização do Estado, a constituição de burocracias o mais livre possível de influências privadas, cuja constituição é estatuída por lei, cuja ação é regida por normas, por procedimentos estabelecidos em leis. Yeda se seus "mudernos" deveriam ler Max Weber. De qualquer forma acho que não entenderiam...
Enquanto a república brasileira, mal ou bem, mais ou menos, indicia seus algozes (se vai condená-los é outro capítulo) o Rio Grande do Sul volta ao século 18. Vai fechando-se um ciclo de lutas de dois séculos no Rio Grande do Sul, que começaram entre chimangos e maragatos: os primeiros construíram uma república, onde o interesse público encontra esteio na idéia de imparcialidade do Estado frente ao interesse privado, os segundos lutaram contra ela, para transformar o Estado em refém dos interesses particulares da elite econômica da hora. Estão conseguindo, primeiro quebraram o Estado drenando seu dinheiro através de incentivos fiscais a algumas privilegiadas empresas - e não a cadeias econômicas, o que é profundamente diferente - e agora entregam a administração da massa falida para os urubus - afinal os mandarins "mudernos"querem virar empresários! - através das OSCIPS.

Isto tudo não tem nada de moderno, é a velha tradição patriarcal e patrimonialista das elites manifestando-se, basta ler Sérgio Buarque de Holanda. Nem na dinâmica estão inovando: já sob o império as elites importavam formas contemporâneas para verter conteúdos tradionais. Era esse o fim das idéias e instituições liberais sob o reinado dos Orleans e Bragança no Brasil.
Aqui, sob uma sociedade profundamente desigual, que não promoveu ainda o mínimo de igualdade, as instituições forjadas na Europa e America do Norte acabam por agigantar seu pior aspecto: intensificam o domínio do privado sobre o público. Modernizar é, sim, criar suas próprias formas para seus próprios problemas, a luz dos exemplos históricos, não do puro e simples transplante de órgãos. Mas já está feito, agora é esperar mais do mesmo mal: apropriação privada de bens públicos.

Triste sina a do Estado gaúcho...









sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

CPMF II: a luta por trás da luta




Além dos personagens políticos - FHC e Arthur Virgílio - que comandaram a derrota da CPMF, um outro personagem, de múltiplas personalidades e faces, a quem tampouco importa a situação humana dos beneficiários do SUS ou do bolsa família, venceu: o mercado, a "empresa" privada. Em especial aquela parcela dos sócios minoritários do mercado nacional, o empresariado nacional. Chamo esta parcela de burga selvagem. Vejamos porque seus interesses foram, momentaneamente, vitoriosos. E o que pode vir na sequência.

Empresas privadas lidam, principalmente, com 06 variáveis macro: preço final (preço de venda), custos variáveis de produção e comercialização (matéria prima, energia, fretes, etc.), margem ( preço final menos custos variáveis), custos fixos (majoritariamente remuneração e encargos c/ trabalhadores) , lucro e tributos. Destes, o que é que hoje está nas mãos do empresariado nacional mudar?

Preços de venda (PV) são limitados internacionalmente e pela concorrência interna, quando há. O preço de venda é igual ao menor preço do produto no mercado internacional posto no Brasil (preço no país de origem + frete, taxa portuária e imposto de importação). Quando há concorrência, em cima deste preço deve haver um desconto. O "preço" dos custos variáveis (CV) segue a mesma regra, com raras excessões. Aqui, pouco pode fazer a burga selvagem a não ser se sujeitar as referências estabelecidas por seus "pares" mais fortes, a burga americana, européia ou o Estado Chinês. Talvez possa, eventualmente, chorar no colo da mamãe Estado brasileiro por barreiras alfandegárias ou por matéria prima e energia mais barata - do que as referências internacionais - das empresas estatais.

As margens, resultado direto da conta PV - CV, são, portanto, dadas por variáveis exógenas. mercado internacional (preços internacionais mais custo de internação) para ser mais exato.

Mas e depois das margens?

Depois das margens, pagam-se as outras 03 variáveis: custo fixo, lucro e impostos. Estas três variáveis "brigam" por maiores fatias da margem. E o que acontece hoje nesse território de luta?

O principal componente da variável custo fixo são os chamados gastos com pessoal, a plebe que trabalha, produz. Atentem para o fato de que a massa salarial e o salário médio tem crescido significativamente nos últimos 3/4 anos no Brasil: entre 2004 e 2007 ambos cresceram a taxas reais ( acima da inflação) próximas ou superiores a 10% ( ver IPEADATA). Também levem em conta que o salário mínimo cresceu, também em termos reais, cerca de 32% comparando maio de 2007 a maio de 2002. Crescimento, pressionando a demanda por emprego, e alguma regulação - especialmente a política de sucessivos aumentos do salário mínimo - são dois importantes componentes para explicar o comportamento desta variável. Aqui o bicho começa a pegar na divisão da margem.

No entanto, tentar ganhar território na margem reduzindo salário mínimo ou médio, em uma conjuntura de recorrente denúncia das desigualdades sociais, desemprego, pobreza, é duro caminho. Ao menos, hoje, tem menos condições de universalização do que... baixar ou exterminar impostos.

Então, a luta empresariada por parte da FIESP contra a CPMF, que encontrou coro na vaidade de FHC e no "espiritismo" de Arthur Virgilio, é para tomar território, na margem, dos impostos em favor da remunerção do lucro. Se o governo não reagir mexendo em outros impostos, se não aumentar o salário mínimo ainda mais do que vem aumentando - o que poderia dar ao assalariado a parte tomada da CPMF- ou criar alguma regulação pró-investimento, os empresários vão entesourar ou consumir na Daslu a CPMF que ia pro SUS...


E la nave va...


P.S: Para os céticos desse raciocínio. Se à CMF estivesse vinculado o pagamento de juros da dívida pública - e não a saúde ou ao bolsa-família - não tenho dúvidas de que passaria. Mexeria com o sócio majoritário da burga tucana. O tremor na bolsa de valores é uma prova material disso: no interregno entre a queda da CPMF e a decisão do governo sobre o que fazer, reina a incerteza. Na incerteza, toda especulação é válida, inclusive a expectativa de que poderia haver redução do superávit primário (cujos recursos são destinados para o pagamento da dívida pública) para cobrir o rombo de 40 bilhões e manter os gastos em saúde e no bolsa família. Foi por isso que Lula mandou não reduzir a meta de superávit, para "acalmar o mercado".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

CPMF

Sobre a CPMF concordo com Paulo Henrique Amorim:
". Por que os treze senadores do PSDB assumiram atitude tão impopular (1), se é o único partido que tem DOIS candidatos a Presidente ?
. Porque você pode vender a mãe, mas não vende os interesses – já dizia o Dr Tancredo.
. Porque os tucanos têm interesses: são a barriga de aluguel dos interesses mais conservadores da sociedade brasileira.
. A prioridade ideológica dos tucanos é destruir Lula e impedir que ele construa um legado – e faça o (a) sucessor (a).
. Depois, os tucanos resolvem o problema da eleição de Serra ou Aécio.
. E isso ficou claro no mesmo dia em que se soube que a popularidade de Lula subiu no Ibope e o PIB vai para cima de 5%..."
(1) Comentário meu: a população mais pobre, a maioria do eleitorado brasileiro, sabe que se não acaba com os programa sociais a extinção da CPMF vai complicar a vida...`
Também concordo que FHC e Arthur Virgílio mandam mais na oposição do que Aécio e Serra. E que ganharam o terceiro turno das eleições.
Começa agora o quarto. Lula vai tentar manter os programas sociais que eram financiados pela CPMF, base da transferência de renda que lhe dá os altos indíces de aprovação, como se vê na recente pesquisa CNI/IBOPE. Vai tentar evitar qualquer solução de continuidade nos programas centrais de seu governo. Está com menos oxigênio. A tarefa não é fácil. Por exigência estritamente financeira ou por razões políticas, terá que escolher quem vai pagar a conta, quem fornecerá ar ao governo...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Eleições de 2008 I - polarização

Sobre a pesquisa DataFolha, divulgada este final de semana passado.

Primeira observação. Dividindo os partidos em blocos, tendo como referência o posicionamento em relação ao atual governo muncipal, há uma certa estabilidade de preferências no eleitorado porto-alegrense: metade vota PT, PCdoB e PSol, oposição clara ao atual governo municipal, e a outra metade PMDB, PP, PSDB, DEM e PDT, apoiadores diretos ou indiretos da situação. Não há transferência significativa de votos de um bloco para outro em caso de alteração de cenários de candidaturas. No único cenário em que acontece migração de um bloco para outro, esta é menor que a margem de erro, 5%, portanto não tem relevância para efeito de análise.

Segunda observação, neste nível de abstração, a fotografia atual é mais favorável a oposição do que foi o resultado do primeiro turno de 2004. Naquele, o atual bloco de oposição obteve 38,75% dos votos totais contra 54,30% dos votos do atual conjunto de partidos que sustentam o governo Fogaça. A melhor situação atual, materializada em uma situação de equilibrio em relação aos votos totais, deve-se a uma maior quantidade de votos brancos e nulos, comparada a eleição de 2004. Na eleição de 2004, houve 6,35% de votos em branco e nulos. A pesquisa aponta de 11% a 16%, dependendo o cenário. O destino destes votos é decisivo para situação e oposição. Aparentemente, a má avaliação do governo Fogaça retirou eleitores dos partidos que sustentam seu governo, mas isto não foi suficiente para a oposição capturá-los.

Terceira, imagine que os discursos de oposição e situação anulem-se, não sendo suficientes para alterar o percentual de brancos e nulos (ou que a situação os ganhe, com em 2004), imagine, também, os indecisos como abstenções (na pesquisa são cerca de 10 a 12%, na eleição de 2004 tivemos 13,63% de abstenções); mantida a divisão da oposição em três candidaturas com percentuais próximos esta poderá ser a primeira eleição em 20 anos em que corre-se o risco de dois candidatos de partidos apoiadores da situação (direita) estarem no segundo turno: Fogaça e Onix Lorenzoni.

Que estratégia deveria a oposição adotar para evitar que cerca de 40% da população, em função da pulverização de candidaturas de oposição com contingentes de votos similares, fique sem a possibilidade de escolha ótima (dentro de seu bloco de preferências) no segundo turno? Há uma estratégia possível para isso?

Fica para o próximo post.